A vida só tem um sentido, e o único sentido que a vida tem é quando investimos nossa vida na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Esta é a lida do Promotor de Justiça: lutar pela construção contínua da cidadania e da justiça social. O compromisso primordial do Ministério Público é a transformação, com justiça, da realidade social.


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4 de novembro de 2013

A mercantilização da vida


 
Em 1992, Enrique Rojas, médico humanista espanhol, publicou o livro “O homem moderno” denunciando um novo tipo de humano (homem light), que é guiado pela tetralogia niilista hedonismo-consumismo-permissividade-relatividade. Cuida-se de um ser hedonista e materialista, guiado pelo dinheiro, pelo consumo e pelo prazer. Ou, em outras palavras, aquela pessoa que busca sua identidade não no que é, mas no que consome, exibe e sente.
 
Essa espécie humana é discípula do deus-mercado. A sociedade, sobretudo a do ocidente, está repleta desse tipo de gente. Em corolário, a economia de mercado, que é importante instrumento de organização da atividade produtiva, produziu uma sociedade de mercado, em que o consumo, além de alcançar os bens materiais também negocia os valores morais e cívicos.
 
Há muitos séculos, o imperador Vespasiano disse pecunia non olet. A grosso modo, isso significa dizer que o dinheiro é desprovido de conteúdo moral, resumindo-se como meio para as transações comerciais. Logo, não importa a origem do dinheiro ou o móvel do negociante.
 
Esse triunfalismo do mercado bem se vê na sociedade contemporânea. A ironia de Nelson Rodrigues parece ter se concretizado: “O dinheiro compra até amor sincero”.
 
Não à toa, em sua obra, “O que o dinheiro não compra”, Michael J. Sandel, ao tempo em que constata a existência de uma sociedade de mercado, tenta responder a pergunta “quais os limites morais do mercado?”
 
Pouco esforço é preciso para se notar que, na sociedade moderna, o dinheiro é cultuado como o suprassumo da existência humana. As pessoas são regidas pela tirania do ter.
 
Consectariamente, se tudo está à venda, então os valores morais e cívicos são passíveis de corrupção.
 
Nessa senda, o prêmio nobel de literatura em 2010, Mario Vargas Ilhosa, em livro recente, “A civilização do espetáculo”, arrematou com precisão cirúrgica: “o único valor existente é o fixado pelo mercado”.
 
Esse quadro bem demonstra o estado autofágico dos valores humanos, em que a lógica da compra e venda não se aplica apenas a bens materiais: governa a vida como um todo.
 
Ao que parece Marx tinha razão quando ensinou que o dinheiro é o equivalente universal, porque pode ser trocado por qualquer coisa, cujo valor ele quantifica.
 
Logo se vê que essa cultura da mercantilização da vida tem relativizado valores caríssimos à vida humana.
 
Portanto, é tempo de reflexão e correção de rota por parte da sociedade contemporânea. Limitar a atuação do mercado é medida de rigor. Há esferas na vida que devem ser guiadas apenas pelos valores morais e cívicos, que não podem ser cooptadas pelo vil metal. As coisas (objetos) têm preços, ao passo que as pessoas e seus sentimentos têm valores, que não podem ser alienados e negociados por dinheiro algum. Aqui está o limite moral do mercado. Incumbe, pois, ao homem (ser moral) impor os limites da mercancia, já que o dinheiro é amoral.
 
Por César Danilo Ribeiro de Novais, Promotor de Justiça no Mato Grosso e Editor do blogue www.promotordejustica.blogspot.com.

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